Diante do impossível
Um comentário sobre Maria Martins, imaginação e arte em tempos difíceis.

Há algo de inquietante na escultura “O Impossível” (1945), de Maria Martins. Duas formas se aproximam e se entrelaçam em um gesto que parece oscilar entre atração e conflito. Seus corpos não são completamente humanos, nem inteiramente animais ou vegetais.
Como acontece com muitas obras de Maria Martins, a escultura produz uma sensação difícil de nomear. Existe atração, mas também estranhamento. As formas parecem familiares e, ao mesmo tempo, profundamente alienígenas. É como se estivéssemos diante de uma cena que pertence a outro regime de imaginação.
Talvez seja justamente essa a experiência mais essencial que a arte pode oferecer: a possibilidade de deslocamento. Diante de uma obra, somos temporariamente retirados do ritmo do presente e convidados a habitar outra sensibilidade, outra forma de perceber o mundo.
Essa capacidade de transporte parece especialmente valiosa hoje. Vivemos cercados por um fluxo incessante de informações, por conflitos geopolíticos e por um ambiente cultural que frequentemente comprime experiências complexas em narrativas rápidas e superficiais. Permanecer no presente tornou-se, paradoxalmente, cada vez mais desafiador.
Esse deslocamento imaginativo é característico do corpo de trabalho de Maria Martins (1894–1973), escultora nascida em Campanha, Minas Gerais, uma artista canônica na história da arte brasileira, que dialogou diretamente com o surrealismo internacional.
Quando produziu “O Impossível I”, na metade da década de 1940, Maria Martins vivia em Nova York, em meio aos anos mais sombrios da Segunda Guerra Mundial. Filha de diplomata e casada com o embaixador brasileiro Carlos Martins, ela circulava entre Washington e Nova York, inserida em um ambiente intelectual que reunia alguns dos nomes centrais da arte moderna e do surrealismo, como André Breton, Piet Mondrian e Marcel Duchamp.

Naqueles anos, Nova York havia se tornado um ponto de encontro improvável para artistas europeus que haviam fugido da guerra. Para muitos deles, o surrealismo era uma forma de reagir esteticamente a um mundo que parecia ter perdido sua lógica. A guerra havia fragmentado fronteiras, deslocado populações e abalado qualquer ideia de estabilidade.
Nesse contexto, a imaginação surgia como uma ferramenta para explorar aquilo que escapava à razão: desejos, medos e forças inconscientes que atravessavam a experiência humana naquele momento histórico.
Em um texto escrito para uma de suas exposições em Nova York, Maria Martins observou: “O mundo é complicado e triste. É quase impossível fazer com que as pessoas se compreendam.” (Valentine Gallery, Nova York, 1947). A frase revela algo da melancolia de seu tempo, mas também ilumina o gesto que compõe sua obra. Se a compreensão plena talvez seja impossível, a arte ainda oferece um espaço onde diferentes imaginários podem se encontrar.

Revisitar obras como “O Impossível” hoje nos lembra que a arte sempre existiu em diálogo com tempos difíceis. Maria Martins criou essa escultura em um momento em que o mundo parecia enfrentar uma crise sem precedentes. Ainda assim, em meio à incerteza e ao deslocamento, produziu uma obra que continua capaz de proporcionar contemplação e reflexão.
Projetos como o Artikin partem dessa mesma intuição. Ao acompanhar as exposições em cartaz e lembrar que cada obra tem um tempo próprio de existência diante do público, o projeto nos convida a desacelerar o olhar e a reencontrar a arte como espaço de reflexão e deslocamento.
Douglas Renosto é pesquisador e estrategista. Recentemente tem se dedicado ao estudo e à observação da arte moderna e contemporânea brasileira.





